Poemas, de Anderson Estevan

 

Em fome pela Recoleta

À meia noite, Buenos Aires é um delírio

De pólvora e concreto esfarelado

Quando a fome entra ligeira, garganta a dentro,

E cada metro percorrido

faz da calle Corrientes, um pedaço esquecido do mundo

Na próxima esquina, a do esquecimento inóspito,

dos chicas se devoram em meio às sombras da madrugada

Juntas, pulsam ao ritmo elétrico da boate fluorescente

Hay vivir solo, cabron

?Si, pero ya lo soy, che?

Pigarreio as horas

?Lo que puedo hacer, sonreir?

Dois meninos cambaleiam até um velho automóvel

El chico uno lleva gafas

O outro, um cacho de bananas nanicas

Que me doem de desejo

Me acosté con hambre los últimos tres días

E os faróis e estações caminham pela calle Santa Fe

Tudo converge para o vendaval que preenche

as cadeiras vazias do Rincon Norteño

Me gustaria una hamburguesa completa

Mi humanidad pide que mi hambre se va

A fome é o desejo de esfarelar o cotovelo gasto,

o arranhar da barba pela vitrine fedorenta na dispersão da noite,

o rasgo no saco de lixo tóxico na esquina com a calle Riobamba

Como son felices, no? Padre, Madre y chicos

Assim como o meu salto desgraçado pelo sistema métrico

que cruza o Oceano Índico

e termina a dois passos do Sul

em meio a transa dos trópicos

No puedo ayudarte, joven

Todos sabem que é impossível medir o desejo

Ou os passos entre a lua

e o pé do estômago

Un viejo me llama y lo escucho

?Usted sabe que es posible predecir el futuro cuando los zapatos inundan la Recoleta?

?En serio? Si, compañero,

Mesmo quando o passo recuerda la lluvia y saudade,

indivisíveis e crônicas

Por cima do seu ombro,

pois já não há mais ombros lúcidos em Buenos Aires,

encaro, atônito, o breu que colore

o melancólico dezembro

? Qué pasa, che boludo?

            Não há luzes de natal,

? Se volvió loco, hombre?

Como pode haver natal sem luzes coloridas?

Una chica sorri e sussurra entre dentes

Como se llama, brasileño?

Pero, não la escucho

Mis pensamientos são de las luces parpadeantes

Mis ojos ahora piscam sem cessar

Pues não adianta

nada mais adiantará

Ya que no hay hambre no porão

E Buenos Aires pode tentar

Mas jamais será o trópico leste do mundo

 

Para que você não se esqueça

Eu preciso lhe dizer

É importante que você não se esqueça

que tudo o que há lá fora

se dissolve com a velocidade

de uma trovoada em alto mar

Chove lá fora

E eu sou a trovoada que corrói

O vapor que escorre pelas janelas

do seu ônibus em plena segunda-feira

Eu sou a segunda-feira

e também o agente que desconstrói

o ozônio por cima de sua cabeça

Eu sou a molécula da nuvem que te persegue a caminho do trabalho

Derramando água e gelo para que você se lembre

que nada lhe faça esquecer

E também para que você se dê conta

do que está em vias de se acabar

Há um temporal

E pode ter certeza, que esse temporal sou eu

que arrasto os carros em direção aos córregos

e que levo ratazanas ao seu banheiro

porque eu sou as ratazanas

Não se esqueça

da minha voz ecoando pelos confins da noite

e da minha mente confusa

Dos meus dedos pálidos tocando sua pele macia

Porque eu também sou o arrepio

e a relva que acolhe os seus pés

enquanto todas as superfícies estão úmidas

Me esvaio na enxurrada que acompanha os passeios

para que possa ser a poça que molha o seu vestido

Eu sou cada uma das fibras de algodão que o compõe

Carregadas por meninos chineses em pleno natal

Talvez você não se surpreenda, mas eu também sou o natal

e o tédio que abraça enquanto o papai Noel não chega

Enquanto eu não chego

para que tudo se acabe num festim de carnaval

Como um conceito absoluto

uma regra imposta pelo espaço

Como o retinir da garoa enquanto a noite se expande e você repousa

e eu, imerso em brumas de sono

Sinto e sei,

Eu sou o teu pesadelo perfeito

 


Anderson Estevan é paulistano, poeta e jornalista. Autor de “Cores Primárias” (2013), pela editora Multifoco.

Poemas originalmente publicados en Cantera 9.

Imagen de Džoko Stach en Pixabay

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