La obra de Diamela Eltit se publicará por primera vez en Brasil

La escritora Diamela Eltit, una de las voces literarias más importantes en lengua española, será publicada por primera vez en Brasil. Asimismo, la escritora asistirá a la Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), evento que se llevará a cabo en Río de Janeiro entre el 26 y 30 de julio.

A pesar de que la obra de Eltit ha sido muy estudiada en Estados Unidos e Hispanoamérica, sus libros no habían sido traducidos al portugués hasta ahora. En julio de este año se publicarán en Brasil Jamás el fuego nunca (traducida como Jamais O Fogo Nunca), considerada una de las 25 mejores novelas en español de los últimos 25 años (Babelia, 2016), y A Máquina Pinochet e Outros Ensaios, una colección de textos críticos traducidos por Pedro Meira Monteiro y organizados por Javier Guerrero, ambos profesores del departamento de Español y Portugués de Princeton University.

El nombre de Diamela Eltit, prácticamente desconocido en Brasil, es una apuesta de la nueva curadora de Flip, Joselia Aguilar.

A continuación puedes leer un fragmento en portugués de Jamais O Fogo Nunca.

“Estamos jogados na cama, entregues à legitimidade de um descanso que merecemos. Estamos, sim, jogados na noite, compartilhando. Sinto o seu corpo dobrado contra as minhas costas dobradas. Perfeitos. A curva é a forma que melhor nos acomoda porque podemos harmonizar e desfazer nossas diferenças. Minha estatura e a sua, o peso, a distribuição dos ossos, as bocas. O travesseiro sustenta equilibradamente as nossas cabeças, separa as respirações. Tusso. Levanto a cabeça do travesseiro e apoio o cotovelo na cama para tossir tranquila. Incomoda você e até certo ponto lhe preocupa a minha tosse. Sempre. Você se mexe para me mostrar que está ali e que eu me excedi. Mas agora você dorme enquanto eu mantenho ritualmente minha vigília e meu afogamento. Terei que lhe dizer, amanhã, sim, amanhã mesmo, que devo racionar seus cigarros, reduzi-los ao mínimo ou definitivamente deixar de comprá-los. Não temos o bastante. Você apertará as mandíbulas e fechará os olhos quando me escutar, e não vai me responder, eu sei. Permanecerá impávido como se as minhas palavras não tivessem a menor aderência e continuasse ali, íntegro, o maço que compro fielmente para você.

Você gosta, você se importa com isso, você precisa fumar, eu sei, mas você não pode mais, eu não posso, não quero. Não mais. Você pensará, eu sei, em quanto você tem se sustentado nos cigarros que consome sistematicamente. Tem sido assim, mas já não é necessário.

Não.

Não consigo dormir e, entre os minutos, através dos segundos que não chego a precisar, se intromete uma inquietude absurda mas que se impõe como decisiva, a morte, sim, a morte de Franco. Não consigo lembrar quando Franco morreu. Quando foi, em que ano, em que mês, em que circunstâncias você me disse: Franco morreu, finalmente morreu, jogado como um cachorro. Mas você estava fumando e eu também nesse momento. Você fumava enquanto falava da morte e eu fumava e, enquanto acompanhava seu rosto adolescente, abertamente ressentido e lúcido e de certa forma deslumbrante, apaguei o cigarro entendendo que era o último, que eu nunca mais fumaria, que nunca gostei de aspirar aquela fumaça e engolir a queimação do papel. Sinto o seu cotovelo apoiado na minha costela, penso que ainda tenho costela, e aceito, sim, me entrego ao seu cotovelo e me conformo com a minha costela.

Me viro, ponho minha mão sobre o seu quadril e sacudo você uma e outra vez, rápido, ostensiva. Quando morreu Franco, pergunto, em que ano. Quê?, quê?, você diz. Quando morreu, eu digo, Franco, em que ano. Com um só impulso você se senta na cama, veloz, atravessado por uma fúria muscular que você já não exerce nunca e que me surpreende. Apoia a cabeça na parede, mas volta de imediato a deslizar entre os lençóis e fica de costas para mim.

Quando?, eu pergunto, quando?

Com a respiração agitada demais, você chega à borda da cama, não sei, responde, fique quieta, durma, vire para lá. Um dia específico de um ano específico, mas que não faz parte de uma ordem. Uma cena desprendida, já inarticulada na qual fumávamos concentrados, entregues à nossa primeira célula, enquanto você, precocemente sábio, com a plenitude que as habilidades podem alcançar, sustentava algumas palavras legítimas e consistentes que não se podiam contornar, e nós o olhávamos extasiados – os seus argumentos – quando você explicava a morte de Franco e eu, cativada pelo rigor das suas palavras, apagava o cigarro possuída por um nojo final e observava o papel destroçado contra o filtro, olhava a ponta no cinzeiro e pensava, nunca mais, é o último, acabou, pensava e pensava por que eu tinha fumado tanto naquele ano se não gostava, na verdade, da fumaça. Visualizo o cinzeiro, o cigarro apagado com os filamentos escassos de tabaco desfeitos em seu centro. Eu o tenho. Tenho também a morte de Franco, mas não o ano, nem o mês e muito menos o dia. Me diga, me diga, pergunto. Não comece, não continue, durma, você responde. Mas eu não posso, não sei como dormir se não recupero a parte perdida, se não escapo do buraco nefasto do tempo que preciso atrair. A ponta do cigarro amassada contra o cinzeiro, os meus dedos, a sequência das suas palavras convincentes, jogado como um cachorro, em sua cama, o assassino, ou talvez você tenha dito: o homicida, e meu nojo definitivo ao trago de fumaça, o último.

(…)”

Fuente: Estadao

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